Ações ordinárias e ações preferenciais são dois conceitos centrais para qualquer investidor que deseja compreender de forma mais profunda o funcionamento do mercado acionário brasileiro. Logo nos primeiros passos na renda variável, entender essa diferença deixa de ser apenas um detalhe técnico e passa a ser um fator decisivo na construção de uma estratégia consistente, alinhada aos objetivos financeiros e ao perfil de risco de cada investidor.
Isso porque, embora ambas representem participação no capital social de uma empresa, ações ordinárias e ações preferenciais carregam direitos, deveres e dinâmicas econômicas distintas. Portanto, ignorar essas diferenças significa assumir riscos desnecessários, abrir mão de benefícios relevantes ou até interpretar de forma equivocada o comportamento dos preços no mercado.
Ao longo deste artigo, você vai compreender em profundidade como funcionam as ações ordinárias e as ações preferenciais no contexto do mercado brasileiro, quais são suas principais vantagens e limitações, como elas se conectam à governança corporativa, à distribuição de dividendos e aos eventos societários, além de aprender como utilizar esse conhecimento de forma prática na análise de ações e na tomada de decisões financeiras mais racionais.
O que são ações ordinárias no mercado brasileiro
As ações ordinárias, identificadas pelo sufixo ON, representam a forma mais clássica de participação societária em uma empresa listada na bolsa. Ao adquirir uma ação ordinária, o investidor se torna sócio da companhia com direito a voto nas assembleias gerais, o que lhe concede participação direta nas decisões estratégicas do negócio.
Esse direito de voto permite que o acionista ordinário participe, ainda que de forma proporcional à sua posição, de deliberações como eleição de conselheiros de administração, aprovação de demonstrações financeiras, decisões sobre fusões, aquisições, cisões e alterações relevantes no estatuto social.
Na prática, quanto maior a quantidade de ações ordinárias detida, maior é o poder de influência do investidor. Por isso, esse tipo de ação é especialmente relevante para investidores institucionais, fundos de investimento e acionistas estratégicos que buscam participar ativamente da governança corporativa.
Para o investidor pessoa física, especialmente o pequeno investidor, o impacto direto do voto costuma ser limitado. Ainda assim, o direito existe e carrega um valor econômico implícito, principalmente em situações de mudança de controle, disputas societárias ou ofertas públicas de aquisição.
Ações ordinárias e o Novo Mercado da B3
No Brasil, as ações ordinárias ganharam ainda mais relevância com a criação do Novo Mercado da B3. Esse segmento de listagem exige que as empresas emitam exclusivamente ações ordinárias, eliminando a diferenciação entre classes e ampliando os direitos dos acionistas minoritários.
Empresas listadas no Novo Mercado tendem a apresentar padrões mais elevados de governança corporativa, maior transparência e alinhamento entre controladores e minoritários. Como consequência, suas ações ordinárias costumam ter maior liquidez, presença em índices relevantes e maior interesse de investidores institucionais.
O que são ações preferenciais e como elas funcionam
As ações preferenciais, identificadas pelo sufixo PN, possuem uma lógica distinta dentro da estrutura societária. Como o próprio nome indica, elas concedem preferência ao acionista em determinados aspectos econômicos, principalmente no recebimento de dividendos e, em alguns casos, no reembolso de capital em situações de liquidação da empresa.
Em contrapartida, as ações preferenciais geralmente não conferem direito a voto nas assembleias gerais. Quando esse direito existe, costuma ser restrito a situações específicas, como a ausência de pagamento de dividendos por um período prolongado, conforme definido no estatuto social da companhia.
Essa característica torna as ações preferenciais especialmente atrativas para investidores com foco em geração de renda, previsibilidade de fluxo de caixa e estratégias de longo prazo baseadas em dividendos. Portanto, elas são amplamente utilizadas por investidores que priorizam retorno financeiro direto, em detrimento da participação na governança.
No mercado brasileiro, muitas empresas adotaram historicamente a emissão de ações preferenciais como forma de captar recursos sem diluir o controle dos acionistas fundadores. Esse modelo, embora funcional do ponto de vista societário, trouxe debates relevantes sobre direitos dos minoritários e qualidade da governança.
Preferência nos dividendos e impacto no valuation
A preferência no recebimento de dividendos faz com que as ações preferenciais possuam uma dinâmica própria de precificação. Em empresas lucrativas e com histórico consistente de distribuição de proventos, é comum que as ações PN apresentem maior demanda, liquidez elevada e, em alguns casos, menor volatilidade.
Além disso, quando a ação preferencial possui dividendos mínimos estabelecidos em estatuto, o investidor passa a enxergar esse papel como uma espécie de instrumento híbrido entre renda variável e renda recorrente, o que impacta diretamente sua avaliação de risco e retorno.
Diferenças estruturais entre ações ordinárias e ações preferenciais
Embora ações ordinárias e ações preferenciais representem participação no capital social de uma empresa, as diferenças entre elas são profundas e afetam diretamente a experiência do investidor ao longo do tempo.
O direito de voto é, sem dúvida, o ponto mais conhecido. Enquanto as ações ordinárias garantem participação nas decisões corporativas, as ações preferenciais abrem mão desse direito em troca de benefícios econômicos. Contudo, essa não é a única distinção relevante.
Outro aspecto fundamental está relacionado à prioridade na distribuição de dividendos. As ações preferenciais recebem os proventos antes das ordinárias, o que pode ser decisivo em empresas que distribuem apenas parte de seus lucros ou atravessam períodos de menor rentabilidade.
A liquidez também merece atenção. Em muitas companhias brasileiras, as ações preferenciais são mais negociadas do que as ordinárias, o que facilita a entrada e saída do investidor. Entretanto, isso não é uma regra absoluta e depende do histórico da empresa, do segmento de listagem e do interesse institucional.
Para que servem ações ON e PN dentro da estrutura de mercado
Do ponto de vista das empresas, a existência de ações ordinárias e preferenciais permite estruturar o capital de forma mais flexível. A companhia consegue captar recursos no mercado mantendo o controle decisório concentrado, ao mesmo tempo em que oferece atrativos econômicos para investidores focados em retorno financeiro.
Para o investidor, essa diferenciação amplia o leque de estratégias possíveis. É possível escolher ações ordinárias para participar de processos decisórios e eventos societários relevantes, ou ações preferenciais para priorizar renda passiva e previsibilidade de resultados.
No contexto do mercado brasileiro, essa estrutura teve papel relevante no desenvolvimento do mercado de capitais, especialmente em empresas familiares e estatais. Contudo, com o amadurecimento do mercado, observa-se uma tendência de simplificação das estruturas acionárias e maior valorização das boas práticas de governança.
Governança corporativa e a importância da classe de ação
A governança corporativa é um dos pilares centrais da análise de ações, e a escolha entre ações ordinárias e ações preferenciais influencia diretamente esse aspecto. O direito de voto das ações ON só se traduz em valor real quando a empresa adota práticas transparentes, conselhos independentes e respeito aos acionistas minoritários.
Em contrapartida, o investidor em ações preferenciais precisa redobrar a atenção à qualidade da gestão, pois sua capacidade de interferência é limitada. Isso torna a análise de histórico de decisões, políticas de dividendos e alinhamento com minoritários ainda mais relevante.
Com o avanço dos segmentos diferenciados da B3, muitas empresas passaram a unificar suas classes de ações, eliminando as preferenciais e adotando exclusivamente ações ordinárias. Esse movimento tende a reduzir conflitos de interesse e melhorar a percepção de risco por parte do mercado.
Dividendos, juros sobre capital próprio e o efeito do tipo de ação
Os dividendos representam uma das principais formas de retorno no investimento em ações, especialmente no longo prazo. Nesse ponto, as ações preferenciais possuem uma vantagem estrutural clara, pois recebem os proventos antes das ordinárias.
Essa prioridade pode significar maior previsibilidade de renda, principalmente em empresas com políticas consistentes de distribuição. Além disso, em alguns casos, as ações PN possuem percentuais mínimos garantidos, o que reforça seu apelo para investidores focados em fluxo de caixa.
As ações ordinárias, embora não tenham preferência, continuam plenamente elegíveis aos dividendos e aos juros sobre capital próprio. Em empresas altamente lucrativas, essa diferença tende a ser menos perceptível, enquanto em companhias com margens mais apertadas, a prioridade das PN ganha relevância.
Riscos específicos associados a cada tipo de ação
Todo investimento em renda variável envolve riscos, e ações ordinárias e ações preferenciais apresentam perfis distintos nesse aspecto. Nas ações ON, o principal risco está ligado à ausência de prioridade nos dividendos e à possibilidade de decisões estratégicas tomadas por controladores que não favoreçam os minoritários no curto prazo.
Já nas ações PN, o risco mais relevante é a falta de poder de decisão. Em momentos de crise, reestruturação ou mudança de controle, o investidor preferencial pode ficar à margem de decisões que impactam diretamente o valor do seu investimento.
Além disso, em cenários extremos como falência ou liquidação, ambas as classes de ações possuem prioridade inferior em relação a credores, o que reforça a importância de uma análise criteriosa da saúde financeira da empresa antes do investimento.
Ações ordinárias e ações preferenciais, como escolher de forma estratégica
A escolha entre ações ordinárias e ações preferenciais não deve ser feita de forma automática ou baseada apenas no preço do papel. Ela precisa considerar o perfil do investidor, seus objetivos financeiros, o horizonte de investimento e, principalmente, a qualidade da empresa analisada.
Investidores com foco em longo prazo, governança e proteção em eventos societários tendem a se beneficiar mais das ações ordinárias. Já aqueles que priorizam renda passiva, liquidez e previsibilidade podem encontrar nas ações preferenciais uma alternativa mais alinhada às suas expectativas.
Em muitos casos, a diferença de preço entre ON e PN cria oportunidades interessantes. Quando a governança da empresa é sólida, o desconto das ações preferenciais pode representar uma assimetria favorável ao investidor atento.
Eventos corporativos e seus efeitos sobre ON e PN
Fusões, aquisições, ofertas públicas e reestruturações societárias impactam de maneira distinta as ações ordinárias e preferenciais. Em operações de troca de controle, por exemplo, as ações ordinárias costumam ser favorecidas pelo direito de tag along, garantindo proteção adicional aos minoritários.
Já as ações preferenciais podem sofrer conversões, ajustes ou até extinção, dependendo dos termos do acordo. Por isso, compreender o estatuto social e os direitos associados a cada classe é fundamental para antecipar impactos e evitar surpresas.
Em bonificações, desdobramentos e agrupamentos, normalmente não há distinção relevante entre ON e PN, sendo os efeitos proporcionais à posição do investidor.
Exemplos práticos de empresas brasileiras
No Brasil, diversos casos ilustram como ações ordinárias e ações preferenciais se comportam na prática. A Petrobras, por exemplo, possui PETR3 e PETR4, sendo que historicamente as ações preferenciais atraíram investidores focados em dividendos, enquanto as ordinárias ganharam relevância em debates de governança.
No setor bancário, Itaú e Bradesco apresentam estruturas semelhantes, com ações PN mais líquidas e amplamente utilizadas por investidores de renda, enquanto as ON concentram interesse estratégico.
Já empresas como a Vale optaram pela unificação de classes, eliminando as preferenciais e reforçando a transparência e o alinhamento entre acionistas.
Diversificação entre ações ordinárias e preferenciais
Uma estratégia sofisticada e frequentemente subestimada é a diversificação entre ações ON e PN dentro da carteira. Essa abordagem permite equilibrar renda, governança e exposição a diferentes dinâmicas de mercado.
Em determinados setores, manter ambas as classes pode reduzir riscos específicos e ampliar oportunidades, especialmente quando há distorções de preço ou expectativa de eventos societários relevantes.
Para quem deseja aprofundar essa análise dentro de um processo estruturado de tomada de decisão, vale explorar o guia completo disponível na página pilar Como analisar ações, onde esse tema é conectado a fundamentos, valuation e estratégia de longo prazo.
Conclusão
Entender a diferença entre ações ordinárias e ações preferenciais é um passo essencial para qualquer investidor que deseja evoluir no mercado de ações. Essas duas classes não representam apenas direitos distintos, mas refletem escolhas estratégicas que impactam retorno, risco e participação na empresa.
Ao analisar uma ação, olhar apenas para o preço ou para o dividendo isoladamente é insuficiente. É preciso compreender a estrutura societária, a governança, o histórico da empresa e como cada classe de ação se comporta em diferentes cenários econômicos.
Com esse conhecimento, o investidor deixa de agir por impulso e passa a tomar decisões mais conscientes, alinhadas aos seus objetivos financeiros e à realidade do mercado brasileiro. O estudo contínuo e a análise criteriosa são, portanto, os verdadeiros diferenciais para quem busca consistência e maturidade no universo dos investimentos em ações.
























